O véu do egoísmo
Todos os homens têm seus desejos orientados para o bem pela própria natureza; fazem aquilo que creem bom. Têm, no entanto, os olhos da fé encobertos pelo véu do egoísmo devido ao pecado original. Privados da luz da fé, como cegos, caminham tateando e agarram-se a tudo o que encontram; afeiçoam-se aos bens materiais e transitórios.1
Imagine uma árvore em cujo tronco existem espinhos. A árvore é o próprio Cristo; os espinhos são as dificuldades enfrentadas por quem O segue. Por causa do amor-próprio, os pecadores fogem da árvore para um monte de palha — símbolo dos prazeres humanos —, iludidos pela aparência de trigo que ela possui. Nela muitos morrem de fome; outros reconhecem-se enganados e superam os espinhos com decisão.
Essa decisão tende a parecer difícil de ser tomada à primeira vista. Mas grande doçura é revelada quando a pessoa virilmente renega a si mesma e diz: “quero seguir Cristo Crucificado”.2 De outra forma, o homem não pode agir. Devemos, como diz Santo Agostinho, enxergar as coisas com olhos cristãos, que enxergam, a saber, conforme a fé.
Santo Afonso explica que a fé é, ao mesmo tempo, dom e virtude: “é dom de Deus na medida em que é uma luz que Deus infunde na alma; é virtude, por outro lado, na medida em que a alma a exercita. Donde a fé não apenas nos há de servir como regra de crer, mas também de operar”.
Ora, Alexandre, o Grande, vendo um soldado covarde, também chamado Alexandre, disse-lhe: “ou você muda de atitude, ou de nome”. Como, pois, podemos carregar o nome de cristãos — ainda mais grandioso — e agir à semelhança desse soldado? Se dizemos crer na vida eterna, vivamos certos desta verdade. Se dizemos crer que Deus nos ama, então O amemos também nós.3
Busquemos a primeira bem-aventurança: “Et beata, quæ credidisti” (Lc 1, 45). Imitemos Maria, porque é “bem-aventurada a que acreditou”. Ela não fugiu da dor, mas a abraçou e amou! Que Deus nos conceda a graça de seguirmos firmes nesse doce caminho, carregando a nossa cruz com paciência, mansidão e coragem.
Notas
- Diz Deus Pai a Santa Catarina de Sena: “Sem o vislumbre de um bem ou satisfação, os homens não se deixam aprisionar [pelo demônio]. Por sua própria natureza, a alma humana tende ao bem. Infelizmente, devido à cegueira do egoísmo, o homem não consegue discernir qual é o bem verdadeiro, realmente útil ao corpo e à alma.” E alhures: “Enganam-se, pois, os pecadores. Ao se privarem da luz da fé viva, tornam-se cegos e caminham tateando, agarrando-se a tudo que encontram. Com olhar obscurecido, afeiçoam-se aos bens materiais e passageiros, iludem-se como tolos que veem o ouro e não o veneno.”
- A analogia da árvore é feita por Deus Pai no livro “O Diálogo”
- Disse Santo Agostinho: “Dizes ‘creio’: faze o que dizes (crer), e aí está a fé”. E São Gregório: "Verdadeiramente crê aquele que pratica na operação o que crê"
Referências
- CATARINA DE SENA, Santa. O diálogo. São Paulo: Paulus.
- LIGÓRIO, Santo Afonso de. Glórias de Maria. Editora Minha Biblioteca Católica.
- Ricardo, Padre Paulo. Participantes da natureza divina - 3ª meditação. Link: https://youtu.be/ntPw5VVSXjI?si=29HoiB5Wt-EobSnG